Minha História sobre o HIV

Através do HIV, conheci pessoas, ouvi histórias e senti um tipo de compreensão que vai além das palavras. Em algum momento, percebi que compartilhar a minha história não era apenas sobre ajudar outras pessoas. Também era sobre me libertar.

Phellipe Lutterbeck

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Foi em 2021 que tudo mudou.

Eu tinha 26 anos e, pela primeira vez, entendi de verdade o que significava não desistir de mim e nem da minha vida. Foi naquele ano que eu recebi meu diagnóstico de HIV.

Posso dizer, sem hesitar, que foi um dos momentos mais chocantes que já vivi, talvez por não estar esperando, talvez por achar que nunca aconteceria comigo. Eu não sabia o que pensar, não sabia o que sentir e muito menos por onde começar.

Muitas vezes, achamos que entendemos o que outras pessoas passam.
Escutamos suas histórias, imaginamos como deve ser, mas estar naquele lugar, viver aquilo na própria pele, é uma história completamente diferente.

Eu nunca pensei que aconteceria comigo.
Sempre pareceu uma realidade distante, algo muito longe da vida que eu acreditava estar vivendo.

E então, de repente, não era mais.
Com o tempo, aquele momento começou a ganhar outro significado.

O que antes parecia um fim, aos poucos se transformou em outra coisa.

Uma mudança.
Um começo que eu não escolhi, mas que precisei aprender a viver.

Viver com HIV tem sido um dos meus maiores professores.
Me mostrou partes da vida que eu nem sabia que existiam - algumas bonitas, outras mais desafiadoras.

Houve momentos de medo, vergonha, desconexão e rejeição. Momentos em que questionei a mim mesmo, em que me senti perdido dentro dos meus próprios pensamentos.

Mas também havia outra coisa ali, sempre presente, mesmo que em silêncio:

Esperança.

Com o passar do tempo, comecei a enxergar tudo de outra forma.

Viver com HIV passou a significar mais do que um diagnóstico. Tornou-se um espaço onde encontrei conexão, amor, compaixão, força, empatia, compreensão, respeito. E, acima de tudo, propósito.

Lembro de ter escrito algo no começo do meu diagnóstico:

“O HIV seria uma jornada - uma jornada sem destino final. A estrada mudaria, a paisagem também,
mas a jornada continuaria.”

E foi exatamente isso que aconteceu.
O que está acontecendo.
O que sempre vai acontecer.

Outra coisa que também ficou comigo foi:

“Nós, pessoas vivendo com HIV, podemos estar no mesmo oceano, mas nunca estamos no mesmo barco.”

Entender isso me mudou.

Me ensinou que, mesmo dentro de experiências parecidas, cada um de nós atravessa a vida da sua própria maneira, no seu próprio tempo.

E, através disso, aprendi algo importante: honrar a minha própria história, vivê-la por inteiro e permitir que outras pessoas façam o mesmo.

Uma das maiores coisas que essa jornada me trouxe foi conexão.

Conexão comigo mesmo.
Conexão com outras pessoas.
Conexão com algo mais profundo.

Através do HIV, conheci pessoas, ouvi histórias e senti um tipo de compreensão que vai além das palavras. Em algum momento, percebi que compartilhar a minha história não era apenas sobre ajudar outras pessoas.

Também era sobre me libertar.

Toda vez que o medo aparecia - especialmente quando se tratava de abrir sobre o meu status - eu tinha uma escolha:

permanecer em silêncio
ou escolher ter coragem de seguir em frente.

Pouco a pouco, eu escolhi a coragem.

Viver com HIV me fez enxergar o quanto a vida é preciosa.

Me fez entender que, mesmo nos nossos momentos mais difíceis, ainda podemos encontrar sentido.
Ainda podemos encontrar direção, ainda podemos se reconstruir.

Eu não vejo a minha vida como algo que terminou em 2021.
Eu vejo como algo que mudou em 2021 e que continua mudando.

E, através dessa mudança, encontrei algo que eu não esperava:
eu mesmo.

Por isso,
eu sigo em frente.
eu continuo crescendo.
eu continuo escolhendo viver plenamente.
eu continuo escolhendo o amor e a coragem.

- Com amor, Phellipe

Coragem Apesar do Medo

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